Na parte 1 desta sequência sobre Rojava, voltei ao ponto de início da chamada “questão curda”, na década de 1920, até chegar ao que ficou conhecido como Primavera Árabe e, por fim, à revolução de Rojava. Nesta segunda parte, o objetivo é aprofundar nossa compreensão sobre o papel das mulheres no processo revolucionário, incluindo o desenvolvimento de Jineolojî — a ciência da mulher e da vida — e a criação da vila das mulheres livres, Jinwar.
O conteúdo que se segue é uma versão ligeiramente resumida e simplificada que você encontra na íntegra na minha dissertação de mestrado (2023). Todas as referências utilizadas, a metodologia da pesquisa e o texto na íntegra podem ser acessados aqui.
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Jin, jiyan, azadi: uma revolução das mulheres
A chegada do PKK na Síria em 1979, um ano após a formação do partido na Turquia, possibilitou às mulheres participação política ativa pela primeira vez. Sua presença no movimento de liberação curdo — por meio das guerrilhas, do envolvimento partidário e organização de atividades de apoio — é descrita como uma mudança radical que transformou as mulheres em sujeitos. Por sua vez, a violência doméstica se tornou menos aceita tanto no âmbito individual quanto coletivo, mostrando uma mudança de atitude dos homens perante as mulheres.
Após a prisão de Öcalan, em 1999, a tentativa de pacificar as regiões com forte presença do PKK nas cidades turcas e sírias resultou em uma série de prisões e mortes não só de militantes e guerrilheiros, como de apoiadores civis do partido. Isso levou a articulação das mulheres à clandestinidade até 2011. Em 2005, com a declaração do Confederalismo Democrático e a crescente movimentação política de mulheres na região, é fundada a União Estrela das Mulheres Livres. Depois de sair da clandestinidade, a União Estrela passou a organizar uma série de conselhos femininos em diversas cidades sírias. O objetivo era promover formação política e combater o patriarcalismo, sobretudo por meio da atuação dentro da própria União e no envolvimento com o autogoverno. No mesmo ano, foi criada a primeira mal a jin, a “casa das mulheres”. Nesses locais, mulheres locais voluntárias auxiliam e recebem mulheres em situações de violência doméstica, poligamia, casamento forçado de meninas, divórcio e falta de acesso à educação.
Após a declaração da Revolução de Rojava, a União Estrela estendeu sua área de atuação para todos os cantões de Rojava1 e tornou-se referência na despatriarcalização da sociedade por meio da atuação em assembleias, organização de oficinas e criação de academias para o estudo de Jineolojî. Em 2016, com o objetivo de fomentar a diversidade étnica, religiosa e linguística presente na região, a União Estrela foi renomeada como Kongra Star e passou a organizar uma rede horizontal de comunas, assembleias, cooperativas e espaços de ação direta.
As mulheres também se apropriaram de prédios públicos abandonados para desenvolver as próprias atividades, a exemplo da Academia de Mulheres Ishtar, um espaço dedicado à evolução política e militar feminina. Em 2013, na data de aniversário de Öcalan, foi formada oficialmente a Unidade Feminina de Proteção (YPJ, na sigla original). A criação da guerrilha feminina foi apoiada nas experiências e atividades das mulheres do YJA-Star, porém com foco nas cidades. O YPJ foi uma força fundamental para a derrota do Estado Islâmico em 2015 e para conter a disseminação da brutalidade e misoginia do Daesh e outras milícias fundamentalistas. Muitas dessas milícias foram apoiadas pelo governo turco e sequestraram, mataram e estupraram centenas de milhares de meninas e mulheres na região, sobretudo as yazidis.
O Movimento de Mulheres tem como principais tarefas: i) iluminar a história da mulher; ii) implementar a revolução das mulheres; e iii) alcançar um Contrato Social para mulheres. Ao definir “revolução” como uma transformação social profunda, a revolução das mulheres em Rojava supõe uma mudança radical de pensamento e prática, por meio da qual objetiva-se construir a identidade da Mulher Livre e a transformação dos homens. A “revolução radical das mulheres” é, para Öcalan (2017), “a revolução dentro da revolução” e a centralidade das mulheres na revolução de Rojava é evidenciada na expressão jin, jiyan, azadi (vida, mulher, liberdade em curdo).
Ao reconhecer a necessidade de liberação do primeiro sujeito oprimido para conduzir toda a sociedade e a natureza a uma vida livre, acredita-se que uma revolução onde a libertação da mulher não seja tomada como base e essência acabará por se tornar uma ferramenta de oposição à vida livre. Do ponto de vista histórico, sabemos que, embora as mulheres tenham colaborado ativamente em todos os movimentos de revolução social, elas foram rapidamente dispensadas quando seu envolvimento não era mais interessante para os homens. Uma lembrança que permanece viva no Movimento de Mulheres Curdas.
Em sentido amplo, os objetivos revolucionários resumidos sob os dizeres “mulher, vida, liberdade” podem ser compreendidos como uma ação e prática contra a ideologia patriarcal capitalista. Uma ideologia que resultou no enfraquecimento das relações comunais e de solidariedade e no aprofundamento de estruturas hierárquicas não só entre homens e mulheres, como entre seres humanos e natureza.
A estrutura organizativa autônoma das mulheres é o meio pelo qual as mulheres garantem o desenvolvimento do processo revolucionário. Tal estrutura garante a independência do movimento de mulheres para que este não seja cooptado por ideias patriarcais nem possa ser manipulado pelos homens e assegura a atuação política das mulheres em todas as áreas da sociedade: política, econômica, social, cultural e de autodefesa, de forma articulada com o movimento de libertação mais amplo.
Para que o militarismo (e o monopólio da violência pelos homens) seja superado, e as conquistas da revolução feminina sejam preservadas, a autodefesa das mulheres é enfatizada como uma pedra angular do movimento de mulheres. Ela busca a legítima defesa tanto ideológica quanto física do sistema de dominação. Dessa forma, embora a autodefesa inclua a defesa física das mulheres por meio das guerrilhas armadas, a autodefesa das mulheres não se reduz à luta armada, se opondo à “colonização das mulheres como um todo” e garantindo “proteção da capacidade da vida de se desenvolver” (DIRIK, 2022).
Perspectivas ecofeministas em Abdullah Öcalan e Rojava
Para Öcalan, a civilização hierárquica tem suas raízes nas primeiras sociedades patriarcais estatais e pôde se estabelecer por meio da escravização das mulheres, apropriação do seu trabalho e posterior servidão de outros povos e culturas. A forma como o líder curdo reflete sobre a relação entre a economia política/ecologia do capitalismo e do trabalho das mulheres é onde a conexão entre o pensamento de Maria Mies e a perspectiva ecofeminista no movimento curdo é mais evidenciada.
Assim como Mies, ao retornar às origens da civilização ocidental ainda no Neolítico, Öcalan enfatiza o papel das mulheres como primeiras produtoras da vida e criadoras da primeira economia, sendo pioneiras no desenvolvimento da agricultura e de conhecimentos correlatos. O modo de produção não produtivo dos homens, baseado na apropriação da capacidade (re)produtiva feminina e na coerção e violência, se torna o paradigma dominante do desenvolvimento da civilização central. Com a ascensão do capitalismo, o completo enclausuramento da mulher acontece com a donadecaseficação (housewifization, palavra que Öcalan empresta de Mies). Öcalan interpreta esse processo como uma série de rupturas sexuais ao longo do desenvolvimento histórico, sendo a donadecaseficação a forma mais violenta e efetiva de dominação estabelecida sobre as mulheres. Para ele, todo o trabalho executado por elas é desmerecido e denominado como “trabalho feminino”, embora seja o mais demandante, enquanto a presença feminina na esfera pública é exponencialmente restringida, institucionalizando a ideia de “sexo frágil”.
Baseado nas sociedades matricêntricas e matrísticas de caçadores-coletores do Neolítico, Öcalan (2017) entende o “socialismo primordial” como aquele em que a divisão sexual do trabalho não era baseada em “propriedade e relações de poder”. Nessas sociedades, nenhum homem ou mulher era propriedade de ninguém, e a natureza era percebida como viva e animada, não diferente dos humanos. O início da “guerra cultural”, o que ele chama de primeira grande ruptura sexual, é a apropriação do trabalho (re)produtivo das mulheres, primeiro no Neolítico com o roubo de mulheres e da produção de seus excedentes, constituindo “a primeira organização séria de violência”. Depois, com as primeiras formações estatais e a donadecaseficação.
De forma análoga a Mies, Öcalan (2017) entende que “a donadecaseficação é um processo intrinsecamente social e visa toda a sociedade. [...] Para que o sistema funcione, a sociedade em sua totalidade deve ser submetida à donadecaseficação”. Sem a devida compreensão desse processo, não é possível entender como a masculinidade foi moldada nem analisar corretamente a ideologia sexista sobre a qual a cultura do poder e da guerra subjacente ao Estado-nação está fundamentada. Dessa forma, Öcalan (2017) chega à mesma conclusão de Mies acerca do modo de produção destrutivo dos homens quando afirma:
As campanhas para excluir as mulheres e para fabricar reverência à estrutura de autoridade masculina guerreira e conquistadora estavam fortemente entrelaçadas. O Estado como instituição foi inventado pelos homens e as guerras de saque e pilhagem foram quase seu único modo de produção. A influência social das mulheres, baseada na produção, foi substituída pela influência social dos homens, baseada na guerra e na pilhagem.
A segunda grande ruptura sexual analisada é o desenvolvimento das religiões monoteístas e o estabelecimento da família aos moldes do Estado, onde esta é o “pequeno Estado” do homem na figura do patriarca. Tratar as mulheres como inferiores se tornou um mandamento sagrado, enquanto à mulher não foi deixada nenhuma função social para além da doméstica e reprodutiva. A família patriarcal se tornou fonte de trabalho gratuito ilimitado e de “escravos, servos, trabalhadores, soldados” para as elites dominantes, tornando-se “a seguradora do sistema” (ÖCALAN, 2017). Ao retomar a caça às bruxas na Europa, ele entende a transição do feudalismo para o capitalismo como o momento em que “toda a população feminina foi deixada ‘desempregada’”, apesar de todo o trabalho doméstico realizado — a Grande Donadecaseficação foi o “mais impressionante e profundo paradoxo social”.
A terceira ruptura sexual deverá ser contra o “macho dominante”, que transformou a masculinidade na cultura dominante, engendrando um gênero, uma classe e um Estado dominantes. A transformação dos homens é princípio fundamental do socialismo de Öcalan (2017), para quem “liberar a vida é impossível sem uma revolução radical das mulheres capaz de transformar a mentalidade e a vida dos homens”. Critica vertentes do marxismo e do anarquismo que postergam a “questão da mulher” para depois da revolução de classes ou do fim do Estado. Assim como as ecofeministas, defende que os fenômenos sociais devem ser analisados e superados em relação uns com os outros. Posicionando as mulheres como agentes históricos centrais, Öcalan (2017) afirma: “O papel que a classe trabalhadora já desempenhou deve agora ser assumido pela irmandade das mulheres”.
Assim como Mies, Öcalan (2017) entende que as mulheres não devem esperar que democratização e igualdade gerais tragam sua liberdade. É necessária uma organização distinta para que possam determinar seu próprio projeto democrático e os meios de realizá-lo.
Liberar as mulheres, liberar a vida
Ao reconhecer o nexo mulher-natureza-trabalho como a contradição fundamental da civilização capitalista, a liberação das mulheres na perspectiva de Öcalan e Mies passa pela libertação da donadecaseficação. Como afirma Piccardi (2021), trata-se de “restaurar o papel político, social, mas principalmente econômico das mulheres”. Nesse sentido, para Öcalan (2017), “o problema econômico começa quando a mulher é retirada da economia”, cuja “essência está relacionada à nutrição”, ao sustento e, a despeito de todas “as tentativas de colonizar e superar as mulheres”, elas continuam sendo “as verdadeiras criadoras da economia”. Assim como as ecofeministas materialistas, ele vê não apenas as mulheres, mas também a classe meta-industrial, formada pelos “escravos, servos e trabalhadores” responsáveis por produzir valores de uso, como agentes históricos capazes de levar adiante a tarefa de uma economia ecológica.
O trabalho, em particular o não ou mal remunerado, responsável por garantir o funcionamento do capitalismo, é central à perspectiva comunalista de Öcalan. Uma nova sociedade demanda a “transição gradual de uma sociedade baseada na mercadoria para uma sociedade que produz valores de uso, de uma produção orientada para o lucro, para uma produção orientada para o compartilhamento” (ÖCALAN, 2023), sendo “a ecologia [...] o guia fundamental para a ação das áreas rurais, comunidades de aldeias agrárias, todos os nômades, os desempregados e mulheres” (ÖCALAN, 2020). Uma perspectiva que Öcalan entende ser útil tanto para o movimento feminista como para o ecologista, para além do Curdistão.
A perspectiva de subsistência de Mies, com produção orientada para valores de uso em comunidades autárquicas e independentes do Estado, é similar à proposta comunalista anti-hierárquica e antiestatal do líder curdo. Nela, a produção não é destinada ao lucro e o trabalho (re)produtivo das mulheres é entendido como fundamental. Öcalan (2020, p. 108) reconhece a centralidade da mulher para a reprodução do sistema de dominação capitalista quando compreende o patriarcado em toda a sua totalidade. A questão da mulher não é meramente econômica, mas também cultural, social e psicológica. Sendo “a primeira e a última colônia”, ela é “tanto uma ferramenta para prazer ilimitado como a escrava mais lucrativa”.
Endereçando os efeitos psicológicos da dominação milenar, Öcalan (2017) insiste na luta contra a hegemonia cultural do patriarcado, considerada a “mais árdua de todas as lutas”, para criar identidades não patriarcais e não capitalistas. Por um lado, a liberação das mulheres extrapola a questão de igualdade entre os sexos, sendo “a essência substancial da democracia, direitos humanos, ambientalismo e equidade social” (ÔCALAN, 2023). Por outro lado, a luta das mulheres deve ser antiestatal e anti-hierárquica, criando formações políticas para uma sociedade democrática e ecológica, garantindo autonomia e autodeterminação femininas como elementos centrais. A insistência para que as mulheres se organizem de forma autônoma em todos os aspectos sociais e culturais, incluindo autodefesa, é uma das características distintivas do PKK e do pensamento de Öcalan.
A elaboração de Öcalan sobre a liberação das mulheres e seu papel central na luta revolucionária recebeu críticas similares às perspectivas ecofeministas. Entre as mais pertinentes estão: sua análise do capitalismo como a forma mais recente do patriarcado, que coincide com a elaboração ecofeminista miesiana; e um suposto essencialismo em sua teoria, similar às críticas endereçadas a Mies e às ecofeministas em geral. Por exemplo, no prefácio de The Sociology of Freedom (2020), John Holloway afirma que tratar o capitalismo como fase mais recente do patriarcado é perder de vista as especificidades do sistema de dominação capitalista, perdendo a centralidade do valor na análise do sistema mundo e reproduzindo uma idealização a-histórica de resistência baseada nas comunidades do Sul global. Embora considere a crítica à idealização das comunidades do Sul pertinente, a realidade é que, sob uma perspectiva ecofeminista:
o teste final de uma teoria são seus resultados, porque toda teoria é uma forma de prática e toda prática incorpora uma forma de teoria. É quando a conexão fica desarticulada e surge um processo de privilegiar um lado sobre o outro que a crítica construtiva se torna contraproducente. (GODFREY, 2006).
Nesse sentido, destaca-se que tanto as elaborações de Öcalan quanto de Maria Mies estão entre as principais influências do Confederalismo Democrático e Jineolojî, atualmente em funcionamento sob a Administração Autônoma Democrática do Norte e Leste da Síria (DAANES). Ademais, ao não compreender o capitalismo como a fase mais recente do patriarcado, perde-se de vista justamente a lógica do valor/não-valor que sustenta o capitalismo.
Jineolojî, a ciência da mulher e da vida
Como aponta Dirik (2022), é difícil definir um movimento tão dinâmico e coletivo como Jineolojî. Aqui, investigo suas bases teóricas, demonstro sua organização prática e aponto conexões entre Jineolojî e práxis ecofeministas.
A palavra “jineolojî” tem raiz em jin (mulher) e jiyan (vida); assim, Jineolojî, que combina “jin” em curdo e “logos” (ciência em grego), é a ciência da mulher e da vida. A palavra aparece no terceiro volume do Manifesto para uma Civilização Democrática, onde Öcalan (2020) critica a inexistência de uma ciência da mulher dentro das Ciências Sociais, explicável apenas pelo “discurso dominado pelos homens” subjacente à ciência moderna.
Apesar do papel de Öcalan na concepção de Jineolojî, ela é apresentada como resultado de mais de quarenta anos do Movimento das Mulheres Curdas. Em 2011, foi constituído o primeiro Comitê de Jineolojî dentro do PAJK, que coescreveu o Jineolojîe giris (”Introdução à Jineolojî”). Em 2012, acontece um encontro sobre Jineolojî em Bașûr; outro, em 2014, em Colônia (Alemanha), com a presença de Maria Mies; e, em 2015, a I Conferência de Jineolojî nas montanhas do Curdistão.
Desde então, Jineolojî se expandiu para além do PAJK, com trabalho de pesquisa paralelo à abertura de centros de educação de mulheres, academias, escolas e projetos de base. Isso ocorre especialmente em Rojava, mas também em outras partes do Curdistão e na Europa. Em Rojava e em Mêxmur (Iraque), Jineolojî faz parte da grade curricular do ensino médio e superior. Também há uma faculdade de Jineolojî dentro da Universidade de Rojava, base do Instituto Internacional de Jineolojî Andrea Wolf e da Academia de Jineolojî, que coopera com o sistema de ensino e estruturas organizativas como as “casas de mulheres” (mal a jin). Na Europa, há mais de uma dezena de comitês de Jineolojî em diversos países.
Jineolojî pode ser entendida como um projeto metodológico, ontológico e epistemológico para produção e recriação de conhecimento, tendo como principal missão ser a ciência da Modernidade Democrática. Sendo uma ciência em si mesma, Jineolojî abrange o feminismo, não sendo nem uma vertente do movimento feminista nem antagônica a ele. Na análise de Jineolojî, a ciência moderna é responsável por tratar tanto as mulheres como a natureza como domesticadas e inferiores aos homens, à cultura e à própria Ciência, de forma que a tarefa fundamental de Jineolojî é a “crítica radical e avaliação das ciências sociais”.
Assim como as ecofeministas materialistas, Jineolojî propõe uma visão holística e não fragmentada para a prática científica, possibilitando respostas mais assertivas aos problemas existentes. Por um lado, isso implica na impossibilidade de compartimentalizar a “questão da mulher” em uma única disciplina, enfatizando a transversalidade dos estudos de mulheres. Por outro lado, significa que “Jineolojî busca uma unidade entre mulheres, vida, natureza e sociedade baseada em uma definição e uma existência próprias” (INSTITUTO ANDREA WOLF, 2020).
Surge dessa visão holística tanto a impossibilidade de separar a existência biológica e social de qualquer ser vivo, especialmente da mulher, quanto a recusa à suposta alienação e imparcialidade entre sujeito/objeto na investigação científica. Essa suposta imparcialidade alcançada por meio da alienação entre sujeito/objeto torna o conhecimento científico “impossível de refutar”. Igualmente, a ciência pós-moderna e seus processos de subjetivação, para a qual o indivíduo é a base de todo o conhecimento, constrói uma verdade individual, exclusiva e irrefutável. Portanto, Jineolojî entende que “ambas as formas de conhecimento e análise estabelecem as bases sobre as quais a ciência é usada como uma ferramenta de dominação e controle” (INSTITUTO ANDREA WOLF, 2020).
Ao mesmo tempo, embora reconheça a particularidade dos sujeitos e as maneiras individuais que os problemas sociais afetam as mulheres, impulsionando que investiguem e gerem suas próprias análises, conclusões e explicações, Jineolojî critica a fragmentação do movimento feminista. Considerando que ninguém é melhor do que o sujeito que vive em um lugar para saber suas necessidades e realidade:
As mulheres precisam melhorar sua compreensão de uma história, valores e resistência comuns contra os problemas e opressões que compartilham globalmente. Porque a revolução das mulheres não deve ser dividida, mas deve ser tratada, analisada e praticada como um todo, sem deixar de respeitar e promover a variedade de identidades que as mulheres têm em todo o mundo. (INSTITUTO ANDREA WOLF, 2020).
Jineolojî também é um esforço de escrita da história a partir de baixo. Reconhece conhecimentos tradicionais e experiências dos sujeitos excluídos da escrita da história, bem como suas práticas e sentimentos, incorporando narrativas tribais, histórias orais, canções antigas, contos mitológicos e a rotina diária de reprodução da vida. Esse engajamento com o conhecimento informal é tido como fonte de sabedoria social e resistência às tentativas de assimilação na modernidade capitalista. Assim, para além de compartilhar postulados da epistemologia ecofeminista, é possível identificar os pressupostos de Maria Mies para uma metodologia de pesquisa feminista em Jineolojî. Segundo Piccardi (2021), as elaborações de Mies informam a perspectiva dos Comitês de Jineolojî. Como Mies, Jineolojî critica tanto o dualismo cartesiano e a fragmentação do pensamento científico quanto o distanciamento da pesquisa feminista da prática política pela liberação das mulheres, o que engendrou uma “academização” dos estudos de mulheres e uma ciência distanciada da realidade social.
A elaboração coletiva dos dois livros intitulados Tezên Azadi (”Teses da Liberdade”) ao longo de 2010 serviu como base importante para a criação de Jineolojî, podendo ser considerada um exemplo prático da metodologia entre pesquisa e ação feminista proposta por Mies. Os livros foram elaborados pelas próprias mulheres organizadas no Movimento de Mulheres. Eles retratam tanto a história geral como a da luta das mulheres no Curdistão, passando pela criação do primeiro exército feminino, os desafios encontrados, as reflexões coletivas sobre problemas e soluções, e as formas pelas quais os obstáculos foram superados. Durante a I Conferência de Jineolojî (2015), a construção coletiva ganhou novas dimensões, com as mulheres podendo opinar, debater e construir tanto o conteúdo geral de Jineolojî quanto suas áreas de pesquisa (demografia, economia, política, ecologia, ética e estética). Depois da Conferência de Jineolojî em Paris (2016), foi acordada a necessidade de elaborar melhor a investigação do sistema capitalista em relação à destruição da natureza e ao feminicídio. Além disso, foi acordado criar instituições autônomas para desenvolver a ciência e o pensamento da mulher e expandir o alcance de Jineolojî para além da sociedade curda.
Práxis ecofeministas em Jinwar
A região de Rojava, parte do Crescente Fértil, foi esgotada por práticas extrativistas e monocultivos intensivos em uso de água e agroquímicos. Como resultado de décadas de práticas insustentáveis, as fontes subterrâneas de água foram em grande medida esgotadas e a fertilidade do solo altamente prejudicada. Além dos efeitos do projeto agrário baathista, a população local lida com as consequências ecológicas da guerra: excesso de detritos, poluição do ar e da água, destruição de infraestruturas remanescentes e o controle da água como arma de guerra por parte da Turquia e do Estado Islâmico, enquanto as redes de esgotos são inexistentes ou deficitárias. Ainda há a intensificação dos períodos de seca, considerados parcialmente efeitos diretos da crise climática.
A degradação ecológica é intensificada pelo desmatamento por empresas ligadas ao governo turco. Em 2019, incêndios criminosos queimaram mais de 40 mil hectares de plantações, o que as comunidades locais chamaram de “terrorismo ecológico”. Toda a região sofre embargo, impedindo que pessoas, insumos e produtos cruzem as fronteiras. A questão energética é outro desafio, dada a dependência do diesel e a ausência de fontes renováveis. Portanto, o cenário de escassez de recursos e guerra armada se soma ao contexto político-ecológico mais amplo, impondo enormes desafios para o desenvolvimento de uma economia ecológica e local.
Para superar tal cenário e garantir a autarquia das comunidades, desde o início dos anos 2000, o Movimento de Mulheres começou a organizar comunas e cooperativas autônomas com o objetivo de contribuir com o desenvolvimento econômico, autonomia alimentar e ampliar a inserção das mulheres em atividades nas quais antes sua participação independente era nula ou restringida. Com a Revolução de Rojava, muitas terras foram socializadas e, com apoio dos Comitês de Economia da Kongra Star, a formação de cooperativas agrícolas, pecuárias, de processamento de alimentos e têxtil foi ampliada para aumentar a produção local de subsistência.
Segundo Aguilar Silva (2019), das 69 cooperativas existentes levantadas em oito cidades em 2019, 17 eram de mulheres. De forma complementar, o trabalho de educação busca envolver mais mulheres no projeto econômico/ecológico de Rojava. No cantão de Cizerê, foi inaugurada a primeira Academia Ecológica. Em junho de 2017, na cidade de Qamishli, foi organizada a Primeira Conferência de Economia de Mulheres do Norte da Síria, reforçando os objetivos de alcançar autossuficiência econômica por meio da ampliação das cooperativas. Nesse sentido, é possível entender a abordagem proposta pelo movimento como uma busca para “desenvolver oportunidades diretas para as comunidades sustentarem a si mesmas por meio da soberania e tomada de decisão política ativa em todas as esferas da vida” (DIRIK, 2022).
As cooperativas devem se desenvolver de acordo com o Artigo 11 do Contrato Social de Rojava, que estabelece o “princípio da coletivização da terra, da água e dos recursos energéticos” e “adota os princípios da economia social e indústria ecológica”. O desenvolvimento de práticas ecológicas acontece sobretudo por meio da produção consorciada de cultivos e técnicas agroflorestais. Nos últimos anos, vários alimentos passaram a ser novamente produzidos, como lentilhas, grão-de-bico, tomate, espinafre, azeitona, cebola, amendoim, couve-flor, berinjela, pimentão e abóbora. Para fortalecer e expandir a multicultura, as mulheres construíram usinas de compostagem no cantão de Cizirê para garantir fertilizantes orgânicos capazes de substituir os petroquímicos.
Jinwar, a vila das mulheres livres, é a conquista mais significativa da participação das mulheres na construção do Confederalismo Democrático e do projeto econômico/ecológico de Rojava. Exemplo paradigmático da conexão entre Jineolojî e práxis ecofeministas, Jinwar abriga mulheres e crianças de religiões e etnias diferentes, sobretudo curdas, armênias, yazidis e árabes. Formada por 50 edifícios — dentre eles trinta casas, uma escola, a Academia de Mulheres, uma biblioteca, uma padaria e cozinha comunais, uma lojinha, o centro de cura Şîfajin, além de espaços para agricultura ecológica e pomares. A vila acolhe viúvas de guerra, mulheres que escaparam de famílias abusivas e aquelas que buscam viver uma vida comunitária livre do domínio masculino. Todas as residentes podem participar do conselho comunal e das decisões sobre Jinwar. Homens podem visitar e ajudar nos trabalhos, mas não podem participar do conselho nem passar a noite. As mulheres também se organizam para a autodefesa do local e recebem visitas de estudantes, jornalistas e pesquisadores. Para ampliar a independência econômica, atualmente há dedicação para desenvolver atividades de costura e um jardim de ervas medicinais processadas em óleo e pomadas.
A construção da vila começou em março de 2017 e foi inaugurada em 25 de novembro de 2018, no Dia Internacional para a Eliminação da Violência Contra as Mulheres. As construções utilizam tijolo adobe (barro, palha e gesso), material típico da Mesopotâmia capaz de oferecer conforto térmico em verões secos e invernos frios. O material é condizente com o local, não exige transporte e não está sujeito ao embargo. Também foi viabilizado o uso de energia solar por meio de placas fotovoltaicas, reduzindo a dependência do diesel e do sistema hidrelétrico. Atualmente, objetiva-se ampliar as placas para atender toda a vila. A disposição das construções forma um triângulo, que tem forte valor simbólico na cultura mesopotâmica por fazer menção à Deusa Mãe. As casas são voltadas para o centro, protegendo o espaço coletivo. Em um dos vértices está o portão de entrada, no outro a escola e a Academia das Mulheres. Do lado de fora, as plantações, pomares e jardins servem como refúgio entre Jinwar e o exterior. Em sua totalidade, Jinwar é um projeto modelo que pode ser replicado não só em Rojava, mas em outras localidades.
Jinwar está localizada a poucos quilômetros dos territórios curdos ocupados pelo exército turco desde 2019, após a retirada repentina das tropas norte-americanas sob ordem do governo Trump. Na época das ocupações, Jinwar precisou ser evacuada. Da aldeia é possível ouvir os ataques diários à cidade de Til Temir feitos por grupos terroristas e milícias ligadas à Turquia. Para além do contexto de guerra, todo o cenário geopolítico é de instabilidade e incerteza.
Para as mulheres, os desafios para o avanço do projeto de Rojava se encontram no seio da própria sociedade. Apesar do trabalho “porta em porta” para dialogar com mulheres e incentivá-las a se envolverem com o autogoverno, há ainda muitas que não acreditam ser capazes, acham as tarefas muito demandantes, possuem responsabilidade na criação de muitos filhos, não têm interesse por motivos ideológicos ou são ridicularizadas por fazerem “trabalhos de homens”. Essa realidade revela o trabalho moroso e complexo necessário à superação não só das estruturas, mas da mentalidade patriarcal tanto em homens como em mulheres.
Do ponto de vista teórico e ideológico, além da vigilância constante para garantir a manutenção dos processos horizontais nas tomadas de decisão e na resolução de conflitos, o PKK tem o desafio de aumentar o número de envolvidos com o autogoverno. É preciso superar a desconfiança de muitos grupos, sobretudo árabes, que ainda veem o projeto do Confederalismo Democrático como um “projeto curdo”.
A despeito das diversas dificuldades, é possível concluir que as mulheres de Rojava, e Jinwar em particular, estão construindo o Confederalismo Democrático de baixo para cima. Elas estão avançando nos esforços de liberação da vida por meio de uma constante ação e reflexão que considera a liberação das mulheres e da natureza como uma questão interconectada. Por mais que o futuro de Rojava seja incerto, o alcance de uma “vitória parcial” para as mulheres e crianças diretamente beneficiadas pelas transformações ocorridas desde a chegada do PKK à Síria e a declaração da Revolução de Rojava é inegável. Como aponta Piccardi (2021), Jineolojî, por meio de sua estrutura organizativa com academias, campanhas, ações de educação e envolvimento direto com o autogoverno local, é uma prática estratégica para uma transformação radical rumo a formas de produção e reprodução da vida não-capitalistas, não-patriarcais e ecológicas — transformando a utopia ecofeminista de uma comunidade de mulheres livres em realidade concreta.
Continue lendo:
Cantões são divisões de áreas administrativas em Rojava. São elas: Cizerê (no leste), Afrin (no oeste) e Kobanî (no centro).






Fico pensando como essa revolução e o trabalho extraordinário dessas mulheres não é amplamente conhecido e divulgado. Óbvio que não é interessante nem ao patriarcado nem ao capital (redunte dizer isso), mesmo assim, nem na boca pequena ficamos sabendo disso nos espaços autoproclamados feministas. Me dói perceber como somos diariamente iludidas por esse feminismo que busca uma igualdade inexistente e apaga mulheres constantemente.
Obrigada por trazer esse história e movimento vivo ao nosso conhecimento, Marina.