This text was originally published in English at degrowth.info. You can check the original version here.
A Parte 3 da série Para entender Rojava (confira a parte 1 e a parte 2) é a tradução de um texto originalmente publicado em inglês, onde eu foco nos novos ataques iniciados em janeiro, na análise da Terceira Guerra Mundial de Abdullah Öcalan — o realinhamento global das forças hegemônicas desde o colapso da União Soviética — e nos Acordos de Abraão, plano de Israel e EUA para estabelecer Israel como o centro hegemônico de uma nova arquitetura de segurança no Oriente Médio — integrando os estados árabes sunitas sob a liderança israelense.
A guerra contra Rojava: a estratégia imperial e a luta por mulher, vida, liberdade
A Revolução de Rojava é melhor compreendida por meio de seu lema: “jin, jiyan, azadi” (mulher, vida, liberdade, em curdo). Mas a revolução das mulheres no Norte e Leste da Síria não começou em 2022, quando o slogan se tornou amplamente conhecido durante os protestos de mulheres após a morte de Mahsa Amini no Irã. Ela começou muito antes, quando o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) chegou à Síria em 1979 e possibilitou, pela primeira vez, a participação política ativa das mulheres. Com o incentivo do líder do PKK, Abdullah Öcalan, foram criadas numerosas organizações exclusivamente femininas para garantir autonomia política.
Após a prisão de Öcalan, em 1999, a organização das mulheres passou à clandestinidade até 2011, quando a União Estrela Livre das Mulheres (mais tarde renomeada Kongra Star, em 2016) surgiu para construir conselhos de mulheres, redes de formação política e as “casas das mulheres” (mal a jin), espaços que oferecem apoio a quem enfrenta violência doméstica, casamento forçado e falta de acesso à educação. Em 2013, foram oficialmente formadas as Unidades de Proteção das Mulheres (YPJ) — guerrilheiras armadas — que desempenharam papel decisivo na liberação de Kobane, em janeiro de 2015, e na derrota territorial final do ISIS, em 2019, contendo a expansão da brutalidade do Daesh — milícias que, com apoio do governo turco, sequestraram, mataram e estupraram centenas de milhares de mulheres na região, especialmente yazidis.
O arcabouço teórico de Abdullah Öcalan dialoga diretamente com perspectivas ecofeministas materialistas, particularmente com a análise de Maria Mies sobre as mulheres como primeiras produtoras da vida e criadoras da primeira economia. Öcalan rastreia a dominação patriarcal por meio de três “rupturas sexuais”: a apropriação inicial do trabalho (re)produtivo das mulheres no Neolítico; o desenvolvimento das religiões monoteístas, que estabeleceram a família patriarcal como o “pequeno Estado”; e a transição ao capitalismo marcada pela “domesticação feminina” — o que ele chama de “Grande Domesticização”, que deixou toda a população feminina “desempregada”, apesar de realizar todo o trabalho doméstico.
O Confederalismo Democrático — o marco político da Revolução de Rojava — não é apenas um projeto de libertação das mulheres, mas também um desafio direto à modernidade capitalista e ao seu paradigma de crescimento infinito. Baseado na libertação das mulheres, na democracia radical e na ecologia, organiza a sociedade por meio de assembleias locais, com igual número de homens e mulheres, rejeitando o Estado-nação centralizado e sua lógica colonial. O sistema da Administração Autônoma Democrática do Norte e Leste da Síria (DAANES) contradiz diretamente tanto a mentalidade capitalista de acumulação eterna quanto a lógica do Estado islâmico, no qual mulheres e minorias étnicas não têm liberdade. Mesmo em meio a guerra prolongada e embargo, a DAANES realizou sua primeira Conferência Ecológica em abril de 2024. Para os movimentos de decrescimento no mundo inteiro, Rojava não é uma inspiração abstrata: é uma referência prática de “como fazer” e deve ser considerada como tal em qualquer debate estratégico.
Sob Ataque: O Que Está Acontecendo Agora
Desde 6 de janeiro de 2026, essa revolução vem sofrendo um ataque sistemático. Para compreender a situação, é preciso nomear claramente os principais atores.
A Administração Autônoma Democrática do Norte e Leste da Síria (DAANES) é o território autogovernado — a estrutura política da revolução de Rojava. Seu braço militar são as Forças Democráticas Sírias (SDF), uma força multiétnica que foi um dos principais parceiros da Coalizão Global contra o Daesh liderada pelos Estados Unidos.
O Exército Nacional Sírio (SNA) — uma coalizão de facções armadas apoiadas pela Turquia, milícias tribais árabes e combatentes do ISIS — lançou uma ofensiva violenta contra a DAANES com apoio da inteligência militar turca. O SNA atua sob a cobertura política do novo governo sírio liderado pelo Hay’at Tahrir al-Sham (HTS), que emergiu da Frente al-Nusra, o braço sírio da al-Qaeda, e hoje é liderado pelo “ex”-jihadista Ahmed Hussein al-Sharaa (também conhecido como Abu Mohammad al-Julani).
Os ataques conquistaram cerca de 40 mil km² anteriormente administrados pela DAANES, deslocando mais de 150 mil pessoas. A brutalidade se espalhou rapidamente, especialmente contra mulheres combatentes: uma lutadora da SDF foi jogada de um prédio; outra teve as orelhas decepadas; cemitérios de mártires foram vandalizados; um vídeo de um jihadista segurando a trança de uma combatente como troféu viralizou, entre outros horrores. Enquanto grandes mobilizações eclodiam no mundo todo, a maior parte da imprensa ocidental permaneceu em silêncio.
As perspectivas para as mulheres sob o HTS ficaram claras em Raqqa. Quando milícias do Exército Árabe Sírio tomaram a cidade em 20 de janeiro, a Zenobia — organização de mulheres árabes construída após a libertação de Raqqa do ISIS pela SDF em 2017 — foi forçada a encerrar suas atividades; seus centros foram saqueados e destruídos. Emel, uma de suas coordenadoras, fugiu sob fogo, alertando a comunidade internacional: excluir as mulheres significa retornar à mesma lógica de violência que o ISIS impôs àquelas ruas há menos de uma década.
A violência contra as mulheres e o desmantelamento das instituições revolucionárias não foram as únicas consequências das conquistas territoriais. Uma das primeiras consequências foi a libertação não oficial de centenas de prisioneiros do ISIS — apesar das tentativas do HTS de culpar a SDF, registros em vídeo mostram que as fugas ocorreram após as forças de al-Julani assumirem o controle das prisões, especialmente no campo de al-Hol. Aproveitando a oportunidade, o ISIS sinalizou que está organizado e pronto para ressurgir com força total na região — perspectiva tornada mais provável pela iminente retirada militar completa dos EUA da Síria, o que também dará à Turquia maior influência sobre suas facções aliadas no país.
Atualmente, Kobane — o coração da Revolução de Rojava, liberada do ISIS há onze anos — enfrenta ainda uma grave crise humanitária após semanas de cerco total: sem água, sem eletricidade, sem alimentos, sem medicamentos. Um acordo de cessar-fogo foi assinado entre as partes em 29 de janeiro — e até agora durou mais do que os dois anteriores. O acordo foi aceito pela SDF para evitar um massacre curdo e estipula a integração de todas as instituições autônomas às estruturas do Estado sírio.
No entanto, o acordo é muito frágil: Damasco não garantiu as conquistas legais e políticas obtidas pelas mulheres sob a administração autônoma, e a posição do governo liderado pelo HTS sobre os direitos das mulheres representa uma ameaça direta aos avanços alcançados durante a Revolução. Outras disposições — como a imposição do árabe como língua oficial do sistema educacional, deixando o curdo como disciplina optativa de duas horas — sugerem que o acordo pode não passar de um adiamento de um confronto inevitável, já que algumas das conquistas centrais da Revolução são inegociáveis.
O Plano Imperial para a Síria
A atual escalada representa uma nova fase do que Öcalan chamou de “Terceira Guerra Mundial” — o realinhamento global das forças hegemônicas desde o colapso da União Soviética. Desde 2020, os EUA e Israel vêm trabalhando por meio dos Acordos de Abraão para estabelecer Israel como centro hegemônico de uma nova arquitetura de segurança no Oriente Médio — integrando Estados árabes sunitas sob liderança israelense enquanto cercam o Irã. Desde 7 de outubro de 2023, essa dinâmica regional se acelerou: o genocídio palestino enfraqueceu a influência iraniana por meio do Hamas e do Hezbollah, enquanto a queda do regime baathista da Síria, em 8 de dezembro de 2024, quebrou outro pilar da hegemonia regional iraniana.
A queda de Assad e a tomada de poder pelo HTS instalaram em Damasco um governo pró-Ocidente que aceita as regras da modernidade capitalista, reconhece de facto a hegemonia de Israel e permanece em silêncio sobre a ocupação israelense do sul da Síria. O HTS, apesar de violações documentadas de direitos humanos e crimes de guerra, recebeu felicitações internacionais; a ONU, os EUA e o Reino Unido retiraram sua designação como organização terrorista.
A reunião de Paris, em 5–6 de janeiro de 2026, na qual Síria e Israel concordaram com um mecanismo conjunto de comunicação sob supervisão dos EUA, formalizou uma aliança coordenada contra a DAANES envolvendo EUA, França, Reino Unido, Turquia e União Europeia. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, prometeu 620 milhões de euros ao governo de transição em 9 de janeiro — principalmente para estabilizar a Síria o suficiente para permitir deportações em massa a partir da Alemanha — enquanto a guerra devastava bairros curdos. O ministro das Relações Exteriores da Turquia, Hakan Fidan, deixou a estratégia explícita: “A SDF só mudará sua posição se for confrontada com força”.
A aliança tática dos EUA com a SDF liderada por curdos ao longo de doze anos foi impulsionada pela luta contra o ISIS — mas também por esforços para conter a orientação socialista da revolução e utilizá-la como instrumento de pressão contra o bloco Assad-Rússia-Irã. Agora, com um regime pró-Ocidente em Damasco, esses interesses táticos mudaram fundamentalmente. Os ataques miram não apenas estruturas políticas e militares curdas, mas também o próprio conceito de nação democrática. O líder do HTS, al-Sharaa, declarou abertamente seus objetivos: petróleo, gás, agricultura, água e recursos energéticos do norte e leste da Síria para a “fraternidade árabe”.
Chamado Global à Resistência
Além de Öcalan e do movimento liderado pelas curdas e curdos, provavelmente não há outra força revolucionário-democrática no Oriente Médio capaz de resistir aos planos imperiais de Israel e dos EUA. Esse plano internacional — apoiado por Israel, Turquia, EUA e Estados europeus — tem como alvo não apenas as conquistas curdas, mas a própria ideia de um Oriente Médio democrático, buscando demonstrar ao mundo que alternativas para além do Estado-nação são impossíveis.
Presos entre interesses imperiais concorrentes, os curdos e seus aliados yazidis, assírios, siríacos e árabes no projeto do Confederalismo Democrático enfrentam não apenas o imperialismo ocidental, mas também um projeto regional de longa data — sustentado tanto por Estados turcos quanto árabes — voltado à aniquilação de sua cultura, tradições, língua e religião.
A Administração Autônoma Democrática e o Movimento de Libertação do Curdistão convocaram uma resistência total nos moldes da resistência de Kobane (2014–2015), enfatizando que a legitimidade genuína emerge da solidariedade de massas e da diplomacia dos povos, e não de negociações estatais — porque todo Estado abandona seus princípios quando seus interesses mudam.
Estar ao lado de Rojava é estar ao lado de um projeto concreto de libertação. A esquerda internacional falhou historicamente com Rojava — mas ainda há tempo para apoiar plenamente esse projeto radical democrático. Comece aprendendo sobre a Revolução: como ela se tornou possível graças a décadas de trabalho político no território e como encarna uma complexidade da realidade que vai muito além do purismo ideológico. Depois, leve esse conhecimento às ações de solidariedade que acontecem em todo o mundo.
*No início de 2025, antecipei que a DAANES poderia enfrentar grandes ameaças após a queda de Assad — esse pior cenário agora está se concretizando.
**A Heyva Sor a Kurdistanê e.V., o Crescente Vermelho Curdo, é a principal organização humanitária na região. Doações podem ser feitas por aqui.




